terça-feira, 29 de abril de 2014

Memórias de infância

Voltei a ler "Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros" porque as memórias dele me levam até às minhas. Acabei de ler "O apanhador de desperdícios", da "A primeira infância", que me fez lembrar minhas muitas horas debruçada no chão, sobre um formigueiro. Lembro que eu gostava de testar o "paladar" das formigas presenteando-as com diferentes alimentos: açúcar, arroz, feijão. Lembro também que eu adorava vê-las trabalhando. Eu jogava terra dentro do formigueiro para vê-las retirar, grão por grão, um "trabalho de formiguinhas". E ficava boquiaberta quando as soltava lá de cima e elas caiam no chão como se nada tivesse acontecido. Quanto mistério por trás de um ser tão 'desimportante'.
As lesmas também me causavam curiosidade. Não tinha coragem de tocá-las, mas elas me fascinavam. Um dia ouvi que jogar sal na lesma a fazia borbulhar, resolvi testar, sem pensar nas consequências para o animal. Joguei sal e quase morri do coração quando a vi borbulhar. Meu desespero foi tamanho que chorei e no impulso dei um banho na coitada para retirar o sal. Aquilo me fez sentir a pior pessoa do mundo. Descobri que Manoel de Barros também gostava de lesmas, ele escreveu sobre elas.
Abaixo vão seus textos sobre os seres desimportantes. Manel, Manel...você me encanta!



O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

Ver
Nas férias toda tarde eu via a lesma no quintal. Era a mesma lesma. Eu via toda tarde a mesma lesma se despregar de sua concha, no quintal, e subir na pedra. E ela me parecia viciada. A lesma ficava pregada na pedra, nua de gosto. Ela possuíra a pedra? Ou seria possuída? Eu era pervertido naquele espetáculo. E se eu fosse um voyeur no quintal, sem binóculos? Podia ser. Mas eu nunca neguei para os meus pais que eu gostava de ver a lesma se entregar à pedra. (Pode ser que eu esteja empregando erradamente o verbo entregar, em vez de subir. Pode ser. Mas ao fim não dará na mesma?) Nunca escondi aquele meu delírio erótico. Nunca escondi de meus pais aquele gosto supremo de ver. Dava a impressão que havia uma troca voraz entre a lesma e a pedra. Confesso, aliás, que eu gostava muito, a esse tempo, de todos os seres que andavam a esfregar as barrigas no chão. Lagartixas fossem muito principais do que as lesmas nesse ponto. Eram esses pequenos seres que viviam ao gosto do chão que me davam fascínio. Eu não via nenhum espetáculo mais edificante do que pertencer do chão. Para mim esses pequenos seres tinham o privilégio de ouvir as fontes da Terra.

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