quarta-feira, 30 de abril de 2014 0 comentários

Seguindo pelo deserto...

De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando
solta no espaço.
(Adélia Prado - Poesia Reunida, p.199)

Aquele que me fez me tirou da abastança,
Há quarenta dias me oprime do deserto. (...)
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
Esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
Redime estas palavras do seu pó.

(Adélia Prado - Poesia Reunida, p.189)

Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
meu pai.
(Adélia Prado - Poesia Reunida)
terça-feira, 29 de abril de 2014 0 comentários

Memórias de infância

Voltei a ler "Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros" porque as memórias dele me levam até às minhas. Acabei de ler "O apanhador de desperdícios", da "A primeira infância", que me fez lembrar minhas muitas horas debruçada no chão, sobre um formigueiro. Lembro que eu gostava de testar o "paladar" das formigas presenteando-as com diferentes alimentos: açúcar, arroz, feijão. Lembro também que eu adorava vê-las trabalhando. Eu jogava terra dentro do formigueiro para vê-las retirar, grão por grão, um "trabalho de formiguinhas". E ficava boquiaberta quando as soltava lá de cima e elas caiam no chão como se nada tivesse acontecido. Quanto mistério por trás de um ser tão 'desimportante'.
As lesmas também me causavam curiosidade. Não tinha coragem de tocá-las, mas elas me fascinavam. Um dia ouvi que jogar sal na lesma a fazia borbulhar, resolvi testar, sem pensar nas consequências para o animal. Joguei sal e quase morri do coração quando a vi borbulhar. Meu desespero foi tamanho que chorei e no impulso dei um banho na coitada para retirar o sal. Aquilo me fez sentir a pior pessoa do mundo. Descobri que Manoel de Barros também gostava de lesmas, ele escreveu sobre elas.
Abaixo vão seus textos sobre os seres desimportantes. Manel, Manel...você me encanta!

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Perder-se para encontrar-se

Perder-se para encontrar-se: o monge, o gato e a lua
10/04/2014 - Leonardo Boff

O homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativa. Não sabe o que é o frescor de uma tarde de outono e é incapaz de ficar sozinho, sem celular, internet, televisão e aparelho de som. Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. Essa pequena estória de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. O que é profundamente verdadeiro só se deixa dizer bem, como atestam os sabios antigos, por pequenas estórias e raramente por conceitos. Às vezes quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que esta estória nos quer comunicar: um desafio para todos.
“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Iguazaim, bem ao sul do deserto de Acaman. Fazia bem 30 anos que para lá se recolhera. 
domingo, 27 de abril de 2014 0 comentários

Hoje eu quero voltar sozinho | Cinema

Tenho dois amigos cegos, desde minha infância. Lembro que na adolescência a gente sentava na calçada de casa para eu ler para eles. Juntos, lemos muitas livros da Coleção Vaga-Lume e Pollyana. Adorávamos o jogo do contente criado por Pollyana, nele éramos desafiados a ver o lado bom de tudo. E eles levavam isso muito a sério. Não lembro deles tristes, ao contrário, eles sempre foram dois jovens muito alegres e sorridentes. E independentes também, tanto que às vezes eu me esquecia do detalhe deles não enxergarem.

Vi recentemente o filme "Hoje eu quero voltar sozinho" e fiquei encantada. O filme me fez lembrar dos meus amigos, suas dificuldades em amadurecer e pertencer a esse mundo tão visual. Por isso, o filme é muito mais do que apenas uma (suposta) discussão sobre a homossexualidade. Ele vai além. O filme mostra que somos todos iguais, independente de nossa "opção sexual". Vale muito a pena ver.
Abaixo vai o curta-metragem do mesmo diretor (Daniel Ribeiro), "Eu não quero voltar sozinho", que deu origem ao longa. Encantável também.

sábado, 26 de abril de 2014 0 comentários

Abraços | Liniers

O abraço foi feito para expressar o que as palavras deixam a desejar...
*
 
 
quinta-feira, 24 de abril de 2014 0 comentários

Corra e olhe o céu | Cartola

"Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia!"
(Cartola)

segunda-feira, 21 de abril de 2014 0 comentários

The Bro Code | Meu blog masculino favorito

Não costumo acompanhar blogs, mas tem um que vire-e-mexe eu o visito: The Bro Code. O que me chama atenção é que o blog é sobre relacionamento e poeticamente escrito por um cara (Ique Carvalho). Escrevendo sobre as próprias experiências amorosas e de terceiros, ele nos dá um gostinho do que se passa na cabeça de um homem quando o assunto é o coração (ele também tenta desvendar o coração feminino). E o Ique escreve com o coração escancarado, sem medo de parecer piegas ou menos homem.
Meus textos preferidos são : "Faça amor, não faça jogo", "Carta ao príncipe encantado" e "Namore uma mulher que sorria". Não vou postá-los aqui justamente para fazer você visitar o The Bro Code, vale a pena, vai por mim. Ah...todo texto vem com uma trilha musical. Então, aperte o play e boa leitura!

domingo, 20 de abril de 2014 0 comentários

Roda Viva | Adélia Prado

Adélia está na minha lista de escritores(as) preferidos. Ouvir suas opiniões sobre política, Copa do mundo, cotidiano e religiosidade é uma delícia. Vale a pena!

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Minha escrita

Eu escrevo bastante. Mantenho um diário (não muito atualizado), carrego comigo um Moleskine de bolso para anotar ideias e pensamentos, meus emails aos amigos são sempre grandes e tento usar este canal para me expressar. Escrevo porque eu penso em demasia e só consigo organizar meus pensamentos soltos e inúmeros quando eu os materializo na escrita. Acho que me expresso melhor escrevendo do que falando, mas mesmo assim ainda tropeço nas palavras escritas e nem sempre a informação chega do outro lado como deveria. Eu escrevo, mas queria saber escrever, em especial poesia. Uma poesia simples, que flua, que não precise ser racionalizada e nem de dicionário ou de um crítico para me ajudar em seu entendimento. Meus poetas favoritos são pessoas simples, que não fazem poesia, não precisam de inspiração, são poetas por vocação.

"Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento..."
(Alberto Caeiro)
terça-feira, 15 de abril de 2014 0 comentários

Sofrimento

"De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo. O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando solta no espaço." (Adélia Prado)
"Felicidade só em raros momentos de distração..." (Guimarães Rosa)

A vida é feita também de sofrimento. E a gente vive para afastá-lo achando que assim nos aproximaremos da tal "felicidade". Mas a vida é feita de ambos, então o melhor a fazer é vivenciá-los em paz. Para mim o sofrimento é uma condição de consciência. Quando um ente querido morre, vem o sofrimento nos "conscientizar" que a vida é finita, mesmo a gente vivendo como se gozasse de vida eterna. Quando sofremos por um amor 'perdido', é a vida nos lembrando que nada nos pertence. Negar o sofrimento nunca é a melhor saída, porque na próxima esquina ele nos acha novamente. Tentar desesperadamente preencher o vazio gerado por ele com elementos externos também não me parece uma boa ideia. Acho, na minha simplória experiência, que a saída mais 'saudável' é enfrentá-lo de frente, reconhecendo sua existência e permitindo sua vivência (passar pelo luto). Acredito que só assim conseguiremos identificar e agregar as ferramentas necessárias para superá-lo ou de algum forma conviver com ele em paz. Na minha primeira desilusão amorosa, eu achei que fosse morrer, literalmente. Até dores físicas no peito eu cheguei a sentir. Foi um longo e dolorido sofrimento, mas que me permitiu conhecer mais de mim mesma. Minha primeira experiência com morte de um familiar também foi barra pesada, mas me ajudou a passar com mais facilidade e tranquilidade nas outras duas que viriam. Dessa forma, percebo que minhas experiências com a dor tem ampliado meu repertório emocional e me ajudado a buscar dentro de mim mesma os instrumentos necessários para me readaptar. Percebo também que o sofrimento me obriga a ser criativa, ele me força a pensar em maneiras novas de superá-lo.
 
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